Em um momento no qual a maior parte do público do grande cinema é formado por adolescentes ou jovens em torno dos 25 anos, a sessão de estréia de Chega de Saudade, em Goiânia, contou com um bom público na faixa dos 35-50 anos. Nada mais coerente. Desde o argumento até o formato, o filme de Laís Bodanzky deixa claro qual é o seu público-alvo em potencial.
Trata-se de uma narrativa com diferentes núcleos, que explora o sentimento de nostalgia para envolver o espectador. Chega de Saudade, no filme, é uma casa de dança que reproduz os bailes dos anos 50 e 60, freqüentada por pessoas que viveram a época em sua juventude. A partir dessa premissa, Bodanzky opta por uma intensa caracterização do ambiente como um mundo à parte. O espaço se impõe sobre a narrativa, determinando-a: se Eudes (Stephan Nercessian) pode paquerar a jovem Bel (Maria Flor) durante toda a noite, mesmo acompanhado de Marici (Cássia Kiss), é porque o baile é justamente o lugar onde as restrições do comportamento são menos importantes que a afirmação de uma liberdade cheia de malícia, muito associada ao imaginário da boemia que o filme reverbera.
Logo, para chorar, Marici precisa abrir a janela, buscar o lado de fora, o espaço exterior. Do lado de dentro, no baile, é a sensualidade que se impõe como motor das ações, e uma espécie de pacto implícito entre homens e mulheres faz valer um padrão de conduta alheio às transformações de identidade e gênero das últimas décadas. Seria pertinente uma problematização dos estereótipos que o filme precisa abraçar para sustentar a representação de uma maneira de ser que atribui ao passado, e cuja interferência no presente se mostra, ao mesmo tempo, como uma incógnita e como um suspiro romântico frente aos novos modelos de relacionamento. O encantamento de Bel com Eudes é o evento dramático que aponta para essa relação ambígua.
Chega de Saudade é um filme excessivamente preocupado em se tornar legível para o espectador comum. Muitas passagens são construídas respeitando convenções clássicas de decupagem que não combinam com as tomadas mais detalhistas com a câmera em movimento. Por outro lado, o seu interesse no grande público resulta em soluções interessantes, tomando como parâmetro o cinemão. É o caso dos semblantes envelhecidos do elenco - basicamente, atores globais da velha guarda. O costume do espectador de televisão com esses mesmos rostos, sempre “corrigidos” pelo padrão global de beleza, transforma o filme em uma experiência peculiar. É chegado o momento de conferir que a ação do tempo também modifica os “famosos”, e as rugas de uma Cássia Kiss ou de uma Betty Faria chamam a atenção por si mesmas. Consciente, o filme valoriza os primeiros planos, e oferece mais um motivo para que um público mais maduro (e mais amplo) se identifique.
Filed under: Cinema |
Tags: Bodanzky, Cinema brasileiro, Rede Globo
2 Responses to “Chega de saudade (Laís Bodanzky, 2008)”
Leave a Reply
Buscar
Você esta atualmente visualizando os arquivos do blog O Transe dos Místicos.

Oie! Passei por aqui! Hihihihihihi!
^^
Beijinho!
=☼
Oi, Magaly!
Oba! Venha sempre!rs
Abração,
Rodrigo