Disque M para Matar (Alfred Hitchcock, 1954)
Escrito por Rodrigo Cássio em Maio 5, 2008
Na metade dos anos 50, Hitchcock conseguiu fazer um filme que impressiona pela objetividade. Se uma das características mais sólidas do cinema clássico é começar as narrativas com uma apresentação explícita das personagens, o diretor levou essa norma a uma síntese-limite em Disque M para Matar. A primeira seqüência do filme é uma série extremamente rápida de cenas e planos isolados. Nela, as principais personagens se integram à trama, as suas respectivas funções são sugeridas, e a relação extraconjugal da personagem de Grace Kelly é fabulosamente apresentada com uma mesma cena de beijo repetindo-se com cada uma das outras duas personagens envolvidas.
Preciso no uso das imagens, Hitchcock não deixa que nada escape ao seu controle, de modo que o envolvimento do espectador cresce a cada novo dado cedido pela narrativa. Assim, não soa negativo que a câmera evidencie um objeto, indicando a sua importância no encadeamento das ações. Reconhecer a função de um objeto não significa deixar de se interessar pelo que vai acontecer a seguir. Hitchcock apenas antecipa para o espectador uma verdade que ainda não foi desvelada na própria trama, e a expectativa desse desvelamento é o que interessa. Se o cinema de gênero chamado suspense não sobreviveria sem esse jogo de esconde-esconde com o espectador, não se tratando de algo exclusivo do estilo de Hitchcock, não é menos verdade que o diretor é capaz de atribuir aos seus filmes uma singularidade que salta aos olhos.
Essa precisão de Hitchcock, que, no fundo, é o domínio de um diretor sobre um determinado uso da linguagem cinematográfica, garantiu-lhe o título de autor mesmo nos anos 60, quando as discussões em torno da possibilidade da autoria no cinema estavam em alta, não raramente atacando a rigidez formal de Hollywood.

Maio 5, 2008 às 8:59 am
ATENÇÃO: SPOILER SOBRE O FILME TRAMA MACABRA
Rodrigo, dia desses, assisti ao último filme de Hitchcock: Trama macabra, de 1976. Na última cena, a personagem de Karen Black pisca para o espectador. Mas não é um rompimento gratuito de digese. É um modo da personagem revelar ao espectador que, no universo do filme, ela tinha tramado uma farsa. A piscadela da personagem tem uma quebra de objetividade digna dos melhores experimentalismos, porém me parece um grande cumprimento ao público. É um encerramento exemplar de carreira. Hithcock era um pensador da arte, um experimentalista, mas sempre fazia questão de atingir o público, agradá-lo… Deve ser por isso que, no ápice de sua carreira, na década de 1950, os grandes estúdios lhe concediam muita liberdade.
Abraços!
Maio 5, 2008 às 10:05 am
Rafael:
Recentemente, assisti ainda a “Os Pássaros”, de 1963. Se não me engano, há também nesse filme uma olhada para a câmera de uma das personagens (estou em dúvida se é neste filme ou em outro). Concordo com você que nada disso é gratuito, no sentido de gratuidade que leva o Belmondo a mandar os espectadores se f* em “Acossado”. Ao contrário, são detalhes muito bem usados pelo Hitchcock para acentuar as relações tensas entre as personagens. Não diria que isso, propriamente, se trata de experimentalismo, em um sentido forte do termo. Talvez, uma quebra suave da diegese. Por outro lado, pode ser experimentalismo no mesmo sentido pelo qual “Festim Diabólico” é um filme de falsa continuidade (aqui, o experimental parece fortalecer a diegese; seria o caso de um experimentalismo a favor de um tipo de experiência com o filme que, em si mesmo, não é posto em xeque).
Mas, em todo caso, penso que Hitchcock não poderia ser chamado de clássico sem um certo exagero. Assistindo desavisado seu primeiro filme, “The Pleasure Garden”, esse sim, um exemplar de cinema clássico, não é fácil acreditar que se trata do mesmo Hitchcock; o diretor que realizaria filmes de traços tão modernos como “Janela Indiscreta” ou o próprio “Os Pássaros”.
Abraço!