O que é um bom filme?
Escrito por Rodrigo Cássio em Maio 7, 2008
Domésticas, o filme (Fernando Meirelles, 2001)
Ao assistir Domésticas, o filme (2001), de Fernando Meirelles, essa pergunta me jogou contra a parede. Por mais que eu me sinta desconfortável com a insistência do diretor em princípios modernosos de montagem (que chegariam a um êxtase em Cidade de Deus, no ano seguinte); por mais que a posição do cineasta de quem “fala por um outro”, somada à intenção de provocar o riso, resulte em personagens que revelam muito mais o imaginário dos que “não são domésticas” do que as domésticas por elas mesmas, empobrecendo a crítica; por mais que tudo isso desemboque numa narrativa que, priorizando a variedade de planos e os cortes (inclusive o faux raccord), parece mais interessada em rever o uso da câmera no cinema de entretenimento do que em pensar o papel da câmera como um elemento essencial do cinema, enfim, eu tenho que admitir que se trata de um bom filme.
Meirelles consegue um bom ritmo, equilibrando as intervenções da linguagem cinematográfica e as encenações. Como nem todo mundo é um Eisenstein, um cinema que se dedica muito a efeitos de montagem não raramente coloca em risco o trabalho dos atores. Esse não é o caso dos filmes de Meirelles. Em Domésticas, nesse sentido, é a atuação de Graziella Moretto que merece destaque. A atriz cria uma personagem que consegue aproveitar o espaço que o filme lhe concede, valorizando cada nuança gestual ou vocal. O filme não seria o mesmo sem ela. Assim como Cidade de Deus não seria o mesmo sem aquele alto aproveitamento dos atores não-profissionais, ajustados ao ritmo fragmentado e alucinante que sufoca a reflexão sobre o que é visto.
Mas a pergunta sobre um bom filme não resolve o problema da minha inquietação diante de Domésticas. Se o filme é, de fato, bom, isso não significa que se trata de um bom cinema. E a pergunta sobre o bom cinema é a que deve prevalecer. Uma pergunta que me parece longe de ser respondida pelos filmes de Meirelles.

Maio 12, 2008 às 12:05 am
Hoje mesmo, lendo uma crítica aos teóricos de Frankfurt, no observatório da imprensa, pensava: como é difícil construir uma boa crítica, seja em relação a um texto, teoria, filme… A jornalista que escreve - indignada com a crítica de Adorno e seus companheiros - expõe uma leitura frágil da teoria, demasiadamente contrária aos posicionamentos da escola, apresentando uma análise que não acrescenta em relação à teoria.
No sentido contrário, lendo o que você escreveu Rodrigo, em relação ao filme domésticas, é encantador perceber (mesmo não sacando de cinema) como sua análise consegue ser serena e centrada. Você admite que o filme é bom, sem perder de vista as limitações da narrativa, da direção, e até a reflexão sobre “o bom cinema”. Seu texto é muito gostoso de ler!
Passei por aqui pra te prestigiar, deixar um beijo e dizer que sempre que possível, passo pra te espiar e aprender sempre um pouco a mais sobre cinema e sobre você! Um abraço carinhoso.
Riva Kran
Maio 12, 2008 às 6:48 am
Oi, Riva!
Bons leitores também são raros. Por isso fico feliz que você freqüente meus textos, que não são mais que impressões rapidinhas sobre os filmes!
Um abração.
Rodrigo.