A julgar pelo seu argumento, Um Beijo Roubado (Wong Kar-Way, 2007) tinha tudo para ser um filme de amor dos mais açucarados. Açucarados como os doces vendidos por Jeremy, personagem de Jude Law. No entanto, a direção autoral de Wong Kar-Way faz da obra uma experiência das mais interessantes, especialmente para o público que vai ao cinema em busca de uma história de amor. A recompensa é dupla. Se o espectador obtém o que espera, ou seja, o encontro de duas pessoas, as mudanças interiores, a superação dos empecilhos e a definitiva filiação romântica, esse mesmo espectador é apresentado a uma concepção da linguagem cinematográfica que não redunda no realismo chavão do melodrama.

Essa dupla recompensa, talvez, seja uma das melhores saídas para um cinema comercial mais sofisticado, que não apenas permite o regozijo em torno do óbvio, mas também o enriquecimento da sensibilidade do espectador, exigindo uma nova forma de olhar. Nesse caminho, a câmera de Kar-Way explora com densidade os enquadramentos, nunca permitindo que as personagens sejam o alvo exclusivo da imagem, ou que os seus contornos sejam instrumentalizados como meros adereços. O material e o humano se interpenetram, fundidos um ao outro. A primeira parte de Um Beijo Roubado é a que mais deixa ver essa peculiaridade, bastando reparar no quanto o café administrado por Jeremy ultrapassa a função de lugar onde ocorre a ação, para se transformar em um elemento que determina, ativamente, os atos das personagens.

Em vez de apenas marcar a localização do elenco em cada novo espaço, alternando a distância da câmera, Kar-Way faz com que cada uma das mudanças interiores das personagens corresponda a uma nova interiorização do espaço, dispensando planos gerais para se concentrar nas minuciosidades da cena. O estilo da direção acaba favorecendo a estreante Norah Jones, que pode ser pouco exigida dramaticamente sem que isso prejudique a composição da sua personagem. A simbiose é adequada, também, para as pretensões do filme de ser um road-movie pouco ou nada ortodoxo - a referência temática e visual a Paris, Texas (1984), de Wim Wenders, é evidente em mais de um momento.

Guardadas as diferenças, Kar-Way remete ainda à primeira vanguarda francesa, liderada por nomes como Jean Epstein. Nesse aspecto, a desaceleração da imagem por meio da câmera lenta conduz o espectador por uma narrativa que rejeita uma percepção empírica do tempo. Diferente do cinema de um Fernando Meirelles (para lembrar o post anterior), esse recurso “moderno” aparece, aqui, a favor de uma outra experiência com o cinema, de modo que Um Beijo Roubado se sustenta, se não como um filme brilhante, pelo menos como uma obra de muito bom gosto.



No Responses to “Um Beijo Roubado (Wong Kar-Way, 2007)”  

  1. No Comments

Leave a Reply