Adorno e Horkheimer sobre Orson Welles
Escrito por Rodrigo Cássio em Maio 20, 2008
Todas as infrações cometidas por Orson Welles contras as usanças de seu ofício lhe são perdoadas, porque, enquanto incorreções calculadas, apenas confirmam ainda mais zelosamente a validade do sistema.
Dialética do Esclarecimento, p. 106
O capítulo sobre a indústria cultural da Dialética do Esclarecimento conta com uma análise do cinema clássico que pode ser considerada, historicamente, o mais difundido ponto de partida para uma crítica a Hollywood. Sob as ordens de uma sistematização que objetifica os indivíduos, transformando a arte em mercadoria, a estrutura dos filmes propaga o ritmo produtivo (o das fábricas, o da rotina industrial). Nas figuras modelares dos astros e estrelas, propõe a pseudo-individualidade como compensação para a anulação da subjetividade. No controle dos estúdios e das distribuidoras, guiado pelo interesse do lucro, os detalhes da obra sucumbem diante da universalidade formal. Os gêneros são um sintomático exemplo. Eles nada têm a ver com a qualidade dos filmes, mas tão somente com a quantificação dos consumidores - gostar mais de um suspense que de uma comédia romântica é uma diferença que diz respeito ao público como consumidor, e não a um gosto verdadeiramente diferenciado.
Eis que surge, no livro, a menção a Orson Welles. Com ela, o cinema moderno penetra no texto de Adorno e Horkheimer. Coerente com a auto-conservação do sistema, que aceita as ousadias à medida que consegue absorvê-las e se aproveitar delas, Hollywood é tão mais moderna quanto mais a relação de dependência do espectador com a indústria passa por uma aparente sofisticação - de fato, aparente, pois se trata, antes de tudo, de uma sofisticação mercadológica. Aproveitando o lançamento do novo Indiana Jones, é possível lembrar de Spielberg - que, a propósito, eu detesto. Se esse diretor pode ser considerado um grande cineasta, é apenas porque soube reacender a chama de Hollywood com o impacto dos chamados “efeitos especiais”. Mas o sentido do estético, aquilo que é autenticamente artístico, e que, a meu ver, tem origem em uma dimensão particular da vida espiritual humana, isso não muda - continua não existindo.
Como nada em filosofia e nas ciências humanas escapa de ruidosas problematizações (ainda bem), a teoria crítica já não está na ordem do dia. Não como estava em décadas passadas, antes dos pós-modernos e do fortalecimento dos cultural studies - outra vertente de base marxista que orienta a reflexão sobre a mídia. Mas, suspendendo os modismos acadêmicos, Adorno e Horkheimer não deixam de ser referências importantes. Principalmente porque insistem na adoção de um ponto de vista filosófico, interessado na universalidade, sem o qual nenhum recorte da realidade seria suficiente. São exigências metafísicas que se opõem ao positivismo que, ao menos formalmente, ainda é muito valorizado na academia, cerceando a área de humanidades e impondo um cientificismo cujos propósitos não vão além da mera institucionalização do saber.
