Todas as infrações cometidas por Orson Welles contras as usanças de seu ofício lhe são perdoadas, porque, enquanto incorreções calculadas, apenas confirmam ainda mais zelosamente a validade do sistema.
Dialética do Esclarecimento, p. 106
O capítulo sobre a indústria cultural da Dialética do Esclarecimento conta com uma análise do cinema clássico que pode ser considerada, historicamente, o mais difundido ponto de partida para uma crítica a Hollywood. Sob as ordens de uma sistematização que objetifica os indivíduos, transformando a arte em mercadoria, a estrutura dos filmes propaga o ritmo produtivo (o das fábricas, o da rotina industrial). Nas figuras modelares dos astros e estrelas, propõe a pseudo-individualidade como compensação para a anulação da subjetividade. No controle dos estúdios e das distribuidoras, guiado pelo interesse do lucro, os detalhes da obra sucumbem diante da universalidade formal. Os gêneros são um sintomático exemplo. Eles nada têm a ver com a qualidade dos filmes, mas tão somente com a quantificação dos consumidores - gostar mais de um suspense que de uma comédia romântica é uma diferença que diz respeito ao público como consumidor, e não a um gosto verdadeiramente diferenciado.
Eis que surge, no livro, a menção a Orson Welles. Com ela, o cinema moderno penetra no texto de Adorno e Horkheimer. Coerente com a auto-conservação do sistema, que aceita as ousadias à medida que consegue absorvê-las e se aproveitar delas, Hollywood é tão mais moderna quanto mais a relação de dependência do espectador com a indústria passa por uma aparente sofisticação - de fato, aparente, pois se trata, antes de tudo, de uma sofisticação mercadológica. Aproveitando o lançamento do novo Indiana Jones, é possível lembrar de Spielberg - que, a propósito, eu detesto. Se esse diretor pode ser considerado um grande cineasta, é apenas porque soube reacender a chama de Hollywood com o impacto dos chamados “efeitos especiais”. Mas o sentido do estético, aquilo que é autenticamente artístico, e que, a meu ver, tem origem em uma dimensão particular da vida espiritual humana, isso não muda - continua não existindo.
Como nada em filosofia e nas ciências humanas escapa de ruidosas problematizações (ainda bem), a teoria crítica já não está na ordem do dia. Não como estava em décadas passadas, antes dos pós-modernos e do fortalecimento dos cultural studies - outra vertente de base marxista que orienta a reflexão sobre a mídia. Mas, suspendendo os modismos acadêmicos, Adorno e Horkheimer não deixam de ser referências importantes. Principalmente porque insistem na adoção de um ponto de vista filosófico, interessado na universalidade, sem o qual nenhum recorte da realidade seria suficiente. São exigências metafísicas que se opõem ao positivismo que, ao menos formalmente, ainda é muito valorizado na academia, cerceando a área de humanidades e impondo um cientificismo cujos propósitos não vão além da mera institucionalização do saber.
Filed under: Cinema, Comunicação, Filosofia |
Tags: Escola de Frankfurt, Indústria Cultural, Indiana Jones, Max Horkheimer, Orson Welles, Spielberg, Theodor Adorno
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