Estive viajando nesse feriadão. Fui ao campo, levando comigo alguns livros na mochila e algumas imagens de filmes na memória. Comecei a aproveitar o tempo livre para matutar sobre temas mais refrescantes, apenas pelo prazer de ocupar a mente. Uma pitada de cinefilia, talvez - e eu que não me considero um cinéfilo, no sentido rigoroso do termo. A pergunta era: quais os melhores finais de filmes? É claro que não existem respostas sérias para uma pergunta sobre os “melhores”. Mas o lance, como eu disse, é deixar que o puro impressionismo guie o julgamento. E lá fui eu em busca das experiências mais marcantes com os desfechos cinematográficos. Por ora, cito dois dos melhores, sem saber se os leitores me acompanharão ou não na escolha.

Os Incompreendidos (François Truffaut, 1959)

A corrida de Antoine Doinel (Jean-Pierre Léaud) ao encontro com o mar é, ao mesmo tempo, a realização de um desejo (o da personagem, que nunca vira o litoral) e a apresentação dolorosa de um dos maiores problemas da nossa época (que não é apenas da personagem, mas de todos nós): a liberdade, essa grandeza estranhamente vazia que o mar representa. Afastado do controle dos pais e do reformatório, Doinel é livre. E aí Truffaut conclui de modo brilhante, deixando o constrangimento da personagem resolver o filme por si só. Não há um saldo positivo ou negativo. Diferente do que queriam os franceses da Revolução, a liberdade não acarreta a nossa satisfação, nem a nossa estabilidade. Acarreta, sim, uma série de incógnitas sobre o nosso lugar no mundo, a nossa identidade, as nossas ações imediatas e duradouras. Não é por acaso que Sartre é um filósofo emblemático do século XX - e, como diria Foucault, a sua Crítica da Razão Dialética é “o magnífico e patético esforço de um homem do século XIX para pensar o século XX”. Em 1959, Os Incompreendidos mostra o que estava circunscrito em seu tempo, e que a angústia sartreana já antecipava: o homem, sozinho, em face de uma infinitude indefinível, que ele mesmo passaria a ter como o seu reflexo. Imagem que, em 1964, Glauber Rocha retomaria como metáfora da utopia socialista, ao final de Deus e o Diabo na Terra do Sol.

Ladrões de Bicicleta (Vittorio de Sica, 1948 )

O desfecho de Ladrões de Bicicleta é uma das cenas de clímax mais memoráveis que já assisti. Todo o filme antecipa, em comoção, o momento preciso no qual Antonio Ricci (Lamberto Maggiorani) é levado a se arriscar em um roubo de bicicleta, colocando a sua honestidade e a sua exemplaridade para com o filho em risco. Vittorio de Sica é um grande diretor de melodramas, como comprovaria Os Girassóis da Rússia (1970), com Sophia Loren e Marcello Mastroianni. Em Ladrões, que é uma obra capital do neo-realismo italiano, o gênero é apropriado a fim de expor as conseqüências perniciosas da Segunda Guerra Mundial para a população italiana - premissa maior do movimento, do qual participaram também, com destaque, Roberto Rossellini e Luchino Visconti. Quando o garoto Bruno (Enzo Staiola), chorando e assustado, busca a mão de seu pai, também estamos diante de uma imagem do amadurecimento. Assim como para o protagonista de Os Incompreendidos, a passagem para uma nova fase, aqui, é forçada, prematura e tumultuosa. Diferente de Doinel, porém, o pequeno-homem Bruno não termina o filme como um indivíduo isolado e sufocado por uma pavorosa liberdade. Ao lado do pai, Bruno se reconhece como integrante de uma coletividade. Sua miséria - física, material, sensível - é a miséria que atinge a toda uma sociedade, abalando valores, crenças, expectativas, projetos de vida.

***

Dois filmes que, em seus finais, pontuam diferenças entre o neo-realismo e nouvelle vague, tema comentado em um dos tópicos anteriores.



8 Responses to “Finais de filmes”  

  1. 1 Rafael

    Rodrigo, o que vem a ser um cinéfilo no sentido rigoroso do termo, rs?

  2. 2 Rodrigo Cássio

    Rafael: Bem, o cinéfilo tem uma relação diferente da que eu tenho com os filmes. Um cinéfilo, digamos, ortodoxo, é muito mais apaixonado, quase dependente. Há um curioso entusiasmo de fã na atitude de quem se liga aos filmes numa relação de cinefilia. Não por acaso, se trata de uma “filia”. E eu não sou assim. Procuro guardar uma distância suficiente pra que eu consiga escrever sobre os filmes sem me deixar afetar pelo gosto (ou, o que também é válido, me deixando afetar sem perder um controle racional sobre isso).

    Mas, é claro, há cinéfilos e cinéfilos. A cinefilia de um cineclube é diferente da de alguém que vive essa experiência isoladamente, etc. No fundo, eu tenho uma certa birra com o termo. A relação intensiva com um produto cultural, qualquer que seja, é algo que não vejo com bons olhos. Prefiro o meio termo, o equilíbrio, algo meio aristotélico. Ainda que isso seja difícil de conseguir, e eu acabe me prendendo demais a outras atividades.

    E você, o que pensa disso tudo?

  3. 3 Rafael

    Rodrigo, como vc bem disse, há cinéfilos e cinéfilos. Vc aprecia filmes e tem idéias do que cinema pode ou não ser para atingir ápices. Nesse sentido, eu te consideraria um cinéfilo. E mais: o fato de vc ter um blog sobre cinema e usá-lo como objeto de estudo acadêmico demonstra que vc tem algum tipo de entusiasmo com o assunto. Vc não dedicaria tanto tempo a algo que não te agradasse, não é mesmo? Por outro lado, há entusiasmos e entusiasmos, rs. Talvez, o seu cinéfilo ortodoxo seja alguém que não se apegue à idéia de que tem relação intensiva com um produto cultural. Nesse sentido, vc acha que o discurso crítico de um “ortodoxo”, o consumidor compulsivo de filmes, teria problemas no lidar com as possibilidades cinematográficas?

  4. 4 Rodrigo Cássio

    Rafael: Hum. Se considerarmos cinéfilo ortodoxo um consumidor compulsivo de filmes, e nada mais que isso, eu acho que ele teria problemas, sim, ao “lidar com as possibilidades cinematográficas”. Isso porque a idéia, como você a propõe, me parece implicar uma rendição do cinéfilo aos filmes que estão disponíveis (intensamente) no mercado. Estou cansado de ver gente que freqüenta muito o cinema e vê muitos filmes em casa, mas que não consegue problematizar o cinema como cinema, de modo que a experiência com o filme nunca entra em questão. Esses cinéfilos estão muito mais preocupados com o rosto bonito da nova candidata ao Oscar do que com os filmes mesmo. Seria o pessoal que lê o Rubens Ewald Filho e considera ele um crítico de cinema, rs.

    Eu penso, sim, que a indústria é muito poderosa, e que a idéia de cinefilia é muito conveniente para a formação de um público-consumidor, e não um público-crítico. E isso me incomoda, de modo que evito o termo. Sei que essa minha crítica é batida, mas considero ela importante. Muitas vezes, o pessoal da crítica especializada que está por aí deixa de lidar com coisas óbvias assim, como a péssima formação do público de cinema.

    Você, como cinéfilo (no sentido da capacidade crítica, que eu te conheço), não concorda que a formação do público é deficiente?

  5. 5 Rafael

    Rodrigo, por vias muito diferentes, eu compartilho de sua preocupação para com a formação de público. Não apenas na relação com o cinema, mas com produtos musicais e literários também. E, sinceramente, não penso que a esperança para reverter tal quadro esteja em colocar todos os ouvintes de “créu” e todos os leitores de entusiasmados de “O código da Vinci” nos nossos cursos universitários. Mas aí é uma outra questão, rs. Agora, voltando para o cinema, acho que o seu grande público está sempre em mutação. Hoje, alguns filmes populares fazem concessões voluntárias ou não (no primeiro caso, variando do oportunismo ao puro cinismo) para agradar ao público que se renova. Vejo essas tentativas no hermetismo de Matrix, na transgressão de O clube da Luta, na seriedade de Harry Potter, no sarcasmo de Shrek, no realismo adolescente de Homem-aranha, nas estéticas de videogame, na narrativa invertida de um Amnésia… Possivelmente, nesses diferenciais esteja a preocupação de se atender àqueles que querem algo mais do que comer pipoca ou namorar numa sala de cinema, ou seja, na própria “formação do cinéfilo”. Porém, estou longe de Frankfurt, rs. Da minha parte, eu até acho muito simpática a idéia da sala de cinema como um espaço de entretenimento saudável projetada para grandes públicos e com preços acessíveis. Numa nostalgia de tempo não vivido, rs, defendo os grandes filmes de gênero e os filmes B despretensiosos. Por outro lado, acharia muito interessante se o público daquela época procurasse por Renoir, Ozu, Rossellini, … E, pensando no grande público de hoje, seria também muito válida a busca pelos populares de outrora: Ford, Hawks, McCarey, Hitchcock… Agora, como investir na boa formação do público seria a “outra questão”, um tanto complexa, que eu não quis me estender. Podemos continuar a conversa verbalmente ou por e-mail. Abraços.

  6. 6 Rodrigo Cássio

    Rafael, eu só não entendi quando você fez a seguinte provocação:

    “Não penso que a esperança para reverter tal quadro esteja em colocar todos os ouvintes de “créu” e todos os leitores entusiasmados de “O código da Vinci” nos nossos cursos universitários.”

    Por que as universidades te parecem tão infrutíferas?
    No mais, continuamos depois. Um abraço.

  7. 7 Rodrigo Cássio

    Agora, eu não posso deixar de comentar, aqui, essa passagem:

    “Possivelmente, nesses diferenciais esteja a preocupação de se atender àqueles que querem algo mais do que comer pipoca ou namorar numa sala de cinema, ou seja, na própria “formação do cinéfilo”.”

    Até que ponto os filmes que você citou estão interessados numa “formação do cinéfilo”? Não seriam eles simplesmente impelidos pelo público a mexer na estrutura gasta dos filmes de gênero? Há mais elementos essenciais aos filmes de hollywood que as diferenças entre gêneros, e esse elementos persistem - isso se dá porque o público “muda” e “não muda”; isto é, o público quer “novidades”, desde que elas não revertam a experiência que se espera ter com o filme.

    Se a formação do cinéfilo é essa, eu dispenso. E não vejo possibilidade de uma formação diferente defendendo-se a “sala de cinema como um espaço de entretenimento saudável projetada para grandes públicos e com preços acessíveis”. Ok, que esse cinema exista - tem lá os seus méritos, sua beleza. Mas ele precisa ser colocado em xeque, sempre. Somente assim o público pode colocar em xeque, verdadeiramente, a sua formação.

    Puxa, acabei comentando a sua resposta, rs. Paramos, mas o assunto é fértil. Até!

  1. 1 Finais de filmes

Leave a Reply