A Concepção (José Eduardo Belmonte, 2006)

A Concepção, o filme, fala do concepcionismo. O concepcionismo não existe – não como está no filme: um instituto, um movimento “organizado” – mas bem que poderia existir. Em todo caso, poderia existir de diferentes maneiras, desde o seu ponto de partida. A questão é: O que pensar de um argumento que apresenta, como elemento dos mais importantes, uma idéia como a da “morte ao ego”? E que, como se não fosse o bastante, mostra documentos de identidade sendo queimados? Pois essa é a matriz do concepcionismo, e foi ela que me levou a reunir uma série de expectativas em torno do longa de José Eduardo Belmonte. Talvez, por isso, minha frustração com o filme seja considerável.

Não excluo a possibilidade de que o desagrado resulte de que me antecipei e me converti em um espectador “armado”, indo ao filme munido com as tais expectativas – não apenas excluo, como aceito essa contestação. Mas isso não modifica o fato de que a idéia original de A Concepção é infinitamente mais interessante que o seu resultado, os seus desenlaces, as suas associações.

O filme problematiza a identidade, tanto de um ponto de vista da estrita subjetividade (a “morte ao ego”, um ataque contra o que se tem, de imediato, como sendo o eu ) quanto de um ponto de vista objetivo (a identidade como documento, o sujeito transformado em número pelo controle do Estado). No entanto, essa problematização não é mais que um passo em direção a uma crítica que amortece, em absoluto, a possibilidade de deixar o problema afetar o espectador. No fundo, sobre a identidade não há um problema como problema, e sim um subterfúgio para uma reprovação da juventude mimada e irresponsável de Brasília - reprovação óbvia, de grande apelo junto ao público. São jovens da estirpe daqueles que, alguns anos atrás, atearam fogo em um índio porque “pensavam que era só um mendigo”.

Assim, a crítica fácil ganha todo o espaço que poderia ser reservado para uma crítica mais árdua, mais fascinante, e também mais rara; aquela que se concentra na noção de biopolítica, no sentido de Foucault e Agamben, ou na relação das noções de rizoma e sociedade de controle em Deleuze. Mas A Concepção é um filme conservador demais para seguir essas rotas. A propósito, poucas vezes o ato de queimar cédulas de identidade foi tão favorável ao controle do Estado, posto que toda a força dessa imagem acaba se voltando contra a idéia de uma nova formação da subjetividade – que, no fundo, nunca passou pela cabeça vazia das personagens.

De maneira ambígua, Belmonte oferece estilhaços de imagens, alucinações visuais e sonoras, distorcendo as vozes e recorrendo aos desajustes de foco, convertendo em linguagem as alterações de percepção que a rebeldia química e psíquica acarretam. Para contestar a imoralidade e a ausência de identificação dos jovens com a sociedade, o filme acaba dependendo dessa outra identificação: a do público com o universo das drogas e do sexo livre (livre mesmo, sem tabus: homossexual, grupal, orgias gigantescas, corpos nus pelo corredor afora – enfim, todas as práticas reprimidas pelo mundo oficializado dos comportamentos previstos e funcionais). Semelhante a uma fofoca ressentida (aquela, cheia de inveja: “Meu deus, olha só o que eles fazem!”), A Concepção é mais moralista que niilista, mais apelativo que eficaz (seja lá o que isso pode ser), e até mais populista que contestador. O que explica e torna desconfiável a definição que lhe deu o seu diretor, diante de um animado público no Festival de Brasília de 2005: “um pequeno passo para retomar a utopia desta cidade e o sonho de um país melhor”.



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