Em sua estréia como diretora, a canadense Sarah Pooley deixa ver o peso das suas experiências, como atriz, sob a direção de Isabel Coixet. Longe Dela traz marcas autorais que parecem traçar uma continuidade em relação aos filmes Minha Vida sem Mim (2003) e A Vida Secreta das Palavras (2005).

Trata-se de um cinema que elege como temas os problemas humanos mais aptos a denunciarem a nossa condição de fragilidade – doenças mortais ou degenerativas, acidentes de trabalho, traumas decorrentes de tortura e os abalos psicológicos que eles provocam. Uma quantia muito bem calculada de pessimismo perpassa as narrativas, exigindo atuações densas e enfatizando uma organização de espaço-tempo que monotoniza a relação do filme com o espectador, no mesmo passo em que torna essa relação dócil e permite a formação de um olhar compassivo e complacente (na evolução da trama, cenas muito parecidas com as anteriores marcam momentos diferentes, de modo que uma mesma angústia se estabelece como o elemento essencial de toda a experiência).

O cinema de Pooley, entendido nessa tríade (e o natural é esperar que seus próximos filmes como diretora sigam o mesmo itinerário, desenvolvendo as matrizes lançadas junto com Coixet), é uma atualização do melodrama bastante sofisticada e predisposta a agradar um público que busca linhas de fuga aos dramas hollywoodianos recentes, mas que não pretendem abandonar o que é essencial a esse gênero: a emotividade, o envolvimento seguro e controlado com problemas particulares que pertencem a um universo de ocorrências possíveis com qualquer um, e que, por isso, nos dizem respeito diretamente.

De fato, qualquer um dos três filmes em foco corresponde a essa expectativa de maneira mais rica, cinematograficamente, que um filme como, por exemplo, o supervalorizado As Horas (Stephen Daldry, 2002) – inclusive no tocante a atuações memoráveis, o que a indústria explorou muito como rótulo do filme de Daldry (afinal, estão presentes as estrelas Meryl Streep, Julianne Moore e Nicole Kidman). Longe Dela, por si só, mostra o quanto estigmas como esse são úteis ao mercado, sendo que a aceitação massiva de uma idéia de “qualidade” pode ser mais um resultado da geografia da distribuição dos filmes, junto com o imaginário impetrado pela indústria, do que um juízo construído pelo próprio público. Nesse sentido, Julie Christie, que também atuara em A Vida Secreta das Palavras, se destaca no filme de Pooley, interpretando uma mulher acometida pelo mal de Alzheimer, sendo devidamente acompanhada por todo o elenco.

Em todo caso, o cinema angustiado de Coixet e Pooley é menos distinto do cinema hollywoodiano de gênero do que as diretoras parecem acreditar – tanto que, em uma passagem de Longe Dela, Fiona (Julie Christie) afirma que não vai muito ao cinema, cansada que está das “bobagens americanas” que sempre são exibidas (o Canadá é um dos maiores mercados de Hollywood). Essa passagem do filme é muito curiosa, pois sugere exatamente a camada do público para a qual a obra se direciona. Sugere ainda, o que também é muito curioso, uma autoconsciência quase ingênua desse cinema que se acredita de ruptura.

Tudo isso é muito propício para o fortalecimento do “cinema cult”, aquele que reúne um certo rol de cineastas e seu público em nome de alguma coisa que nunca se sabe bem o que é, mas que deve ser diferente do que não é, ainda que isso também careça de qualquer definição mais segura. Um cinema que se limita a se disfarçar de oposição, pois permanece engajado em encontrar soluções internas para as crises da narrativa hegemônica, satisfazendo a um público que não ousa colocar em xeque a sua formação como espectador, ainda que, para garantir um certo status, filie-se à nova onda de anti-americanismo que entrou em voga na nossa década, contestando os filmes hollywoodianos apenas pela sua origem – e jamais pelo que eles são, verdadeiramente.



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