* O debate de Jean-Claude Bernardet, Francisco Elinaldo Teixeira e Kiko Goiffman sobre cinema documentário contemporâneo, por si só, já valeria a participação no Festival. Para Jean-Claude, a distinção entre documentário e ficção é tão envelhecida quanto a própria modernidade que a criou. Elinaldo, aproveitando a deixa, associa os filmes que mais problematizam essa distinção às filosofias contemporâneas que atentam para a separação quebradiça entre o “eu” e o “outro” – filmes como Jogo de Cena (Eduardo Coutinho, 2007) ou 33 (Kiko Goiffman, 2004). É a crise do sujeito, emenda Bernardet.

Com isso, temos uma via para repensar a concepção do cineasta como viabilizador da fala de um “outro” (o “outro de classe”), estudada pelo próprio Bernardet nos livros Brasil em Tempo de Cinema e Cineastas e Imagens do Povo – leituras obrigatórias para uma introdução ao cinema novo brasileiro. No meio disso tudo, o que estaria em foco é o cinema político. E aí eu devo partilhar da inquietação de Lisandro Nogueira, que mediava o debate. Se o cinema mais consciente do seu passado, e que, por isso, pretende se inserir de maneira atualizada na trajetória cinematográfica a que pertence, se esse cinema rejeita as dicotomias que marcaram os anos 60 e 70, atentando para os sujeitos por detrás das classes, esse parece não ser o caso da maior parte do que é produzido hoje – justamente um cinema que segue à deriva das novas demandas (ou as novas possibilidades de se compreender o mundo e as relações humanas).

* A mostra competitiva do Fica deixa ver essa relação quase dependente dos cineastas com as formas tradicionais, nas quais pouco ou nada interferem criativamente. O formato-padrão de denúncia é a tônica de filmes premiados como os goianos Subpapéis (Luiz Eduardo Jorge, 2007) ou O Pesadelo é Azul (Ângelo Lima, 2008). Ambos são marcados por uma forte influência da estética televisiva. O filme de Ângelo Lima, que assisti mais de uma vez, se define por uma montagem disposta a criar um discurso linear, recortando e colando as falas dos entrevistados. Esse discurso, contudo, acaba sendo pouco pertinente diante do tema do filme (o acidente radioativo de 1987 em Goiânia), à medida que dá vazão à vitimização das personagens sem um recuo crítico incisivo. O objetivo da obra se concentra em compadecer o espectador com dramas pessoais, sem aprofundar a dimensão social do acidente radioativo.

* A imagem revelatória de um “outro” (um “outro” em relação ao público do cinema, as classes média e média-alta urbanas) é o que baliza outros filmes goianos como Benzeduras (Adriana Rodrigues, 2007), Impej (Rafael de Almeida, 2007) ou Nota Prévia para um Caminho Místico no Brasil Central (Pedro Diniz, 2008). Os filmes “se rendem” aos seus temas, posto que estes, por si mesmos, chamam a atenção do espectador. Mas por que chamam a atenção? Talvez porque passam a ser visíveis como o exótico, o diferente, como esse “outro” que o mundo coloca em oposição ao público dos filmes. Enquanto espectadores, nos deparamos com realidades diferentes (às vezes, nem tão diferentes, como no caso do filme de Adriana Rodrigues; mas, de qualquer maneira, uma realidade que está à deriva da religiosidade oficial).

Ao se voltarem para essas realidades, os filmes dispensam reconhecer a sua própria penetração nelas como a formação de um discurso. Assim, bastaria “dar voz” a seus representantes. Esse “dar voz”, que tenta ser uma afirmação do “outro”, não acabaria promovendo uma certa sacralização? Não acabaria sendo a imposição de um olhar que contribui para separar esse “outro” da realidade do público para o qual ele é exibido? Afinal, quem tem o controle da representação? Em nome de que tipo de afirmação do “outro” ele é apreendido pela câmera e lançado no mundo imaginário que o filme oferece ao espectador? São perguntas que os filmes citados deixam no ar.

* Jaglavak, o príncipe dos insetos (Jeróme Raynaud, 2006), venceu o Prêmio Cora Coralina, destinado ao maior destaque do Fica. O filme não escapa ao televisivo. Ao contrário, é de um didatismo impressionante (no sentido da National Geographic ou da Discovery), optando pela clássica voz over e por uma direção das personagens que superficializa a vida na comunidade africana Mofu, tema da obra. A narrativa é infantil, adocicada, quase mágica – e essa sensação certamente foi maior em virtude de o filme ter sido exibido na versão dublada. O que justifica a premiação é a bonita fotografia e a maneira pela qual Raynaud constrói o paralelo entre os humanos e os insetos, tão importantes na cultura Mofu. A seqüência em que as formigas jaglavak combatem contra cupins é uma típica montagem paralela do cinema de ação (da origem da linguagem clássica, lá atrás, com Griffith), de modo que eu me flagrei pensando em cinema narrativo-clássico de guerra e perseguição no meio de um documentário que, em princípio, nada tinha a ver com o ilusionismo desse tipo de narrativa.

* Batida na Floresta (Adrian Cowell, 2006), melhor média-metragem e vencedor do prêmio da imprensa, e Delta, o Jogo Sujo do Petróleo (Yorgos Avgeropoulos, 2006), que dividiu com Sumidouro (Cris Azzi, 2008) o Troféu Carmo Bernardes (melhor longa-metragem), foram, de fato, muito bons filmes no quesito pesquisa. São dois documentários convencionais quanto ao formato, mas bastante ricos em dados e imagens instigantes.

* A julgar pela premiação (já que perdi alguns filmes que competiram, mas assisti a todos que foram premiados), considero que Zona de Diluição Inicial (Antoine Boutet, 2006), vencedor de melhor média-metragem, foi o grande filme do X Fica. Longe de um cinema-denúncia tantas vezes repetido, a obra destitui a funcionalidade da imagem, comum nos documentários políticos, sem perder a dimensão crítica. Sendo a intenção refletir sobre a menoridade do indivíduo em face dos projetos humanos megalomaníacos (leia-se: em face do crescimento urbano e da iminente perda de controle sobre as metrópoles), não há um único primeiro plano na obra. Por meio de planos gerais, o espaço pressiona os homens, contesta a autoridade deles sobre o mundo, ainda que o seu poder de modificar o espaço seja cada vez maior. Nesses termos, Boutet concebe um cinema que valoriza a precisão em suas escolhas, seja de imagem, seja de som. Em Zona de Diluição, há um outro sentido de sensibilização do espectador, assim como um outro sentido do que pode ser o cinema. Uma voz dissonante que, se eu estivesse no júri, teria o meu voto para um prêmio ainda maior.

Imagem: Zona de Diluição Inicial (Antoine Boutet, 2006)



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