Estômago (Marcos Jorge, 2007)
Em Estômago, a personagem Iria (Fabiula Nascimento) está incubida de destruir o que Nonato (João Miguel) melhor constrói. Sendo Nonato um cozinheiro de “mão boa”, Iria aparece em cena sempre com as mandíbulas em ação. Ele cozinha, ela come, come, come. Sendo Nonato um homem apaixonado, Iria lhe recusa o beijo para cedê-lo a outro homem. Esse fluxo de construção-desconstrução segue até o ponto limite do ritual antropofágico. Traído, Nonato se torna assassino de Iria. Sua nova criação, com isso, tem outro ingrediente: um naco de carne extraído da ex-noiva.
A antropofagia é o marco de uma nova fase na vida de Nonato. Mas o que ele apreende não é propriamente positivo, não é uma seleção do que pode ser útil em prol de uma arte maior. Estamos longe dos modernistas de 22, ou dos cinemanovistas. O que Nonato apreende, ao tragar a carne humana, são as regras da vida na cidade, a sua nova condição, o seu novo lugar no mundo. Tão logo desce do ônibus, o retirante – que, pela ingenuidade, poderia ser um novo Fabiano, de Vidas Secas (Nelson Pereira, 1963) – imerge em uma série de situações e relações pessoais que tornam o presídio seu destino quase natural.
Nos limites de uma narrativa desse modo determinista, o filme de Marcos Jorge é um soco no estômago do neo-liberalismo. Nonato é um tipo que contesta o velho lema da ilusão, que parece proliferar junto com o empreendedorismo e outras esquisitices do capitalismo avançado: “basta ter talento que o seu futuro está garantido”. Ainda que as coxinhas de Nonato, sozinhas, consigam sustentar uma lanchonete; ainda que a sua aptidão para a cozinha lhe ofereça uma oportunidade de crescimento profissional, bem, ainda… não é suficiente.
No mundo justo da cidade, do salário e dos benefícios, tudo o que Nonato não consegue fazer é criar. O seu talento é contrariado pela corrosão social e a marginalidade que o separa dos demais, até que esse mundo é interiorizado junto com a carne de Iria. Nonato canivete? Alecrim? O filme nos confronta com a necessidade de um outro nome, pois a nova condição é como um batizado. O talento, a partir daí, é abarcado pela malícia, pela esperteza, pela ação calculada que exclui da sobrevivência os ingênuos e os românticos como o Nonato do passado. Nonato matou, e agora sabe matar. Tornou-se Alecrim. Matando, alcançou o topo, o andar de cima da beliche. Enfim, se formou para a vida.
Filed under: Cinema |
Tags: Antropofagia, Cinema brasileiro, Marcos Jorge, Neo-liberalismo, Vidas Secas
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